Entrevista com sommelier (parte final): O que é que os azeites brasileiros têm?

A última parte da nossa entrevista com o sommelier e degustador profissional, Paulo Freitas, explora diversas particularidades do azeite brasileiro, do frescor ao preço. Olivais brasileiros parecem ter virado notícia “de repente”. Chefs apostam nas marcas nacionais para valorizar a gastronomia. E, como ressalta Paulo Freitas, a aceitação dos consumidores foi muito boa desde o início, diferentemente do que aconteceu com os primeiros anos de produção dos vinhos brasileiros.

O que é que os azeites brasileiros têm

Mas, tão importante como entender o cenário da olivicultura do Brasil, é saber como degustá-lo e harmonizá-lo com diferentes receitas (veja a entrevista sobre esse assunto aqui) e aprender o que significa a acidez e como escolher um azeite entre as tantas opções, além de como guardá-lo e usá-lo no cozimento dos alimentos (mais informações aqui).

Existe vantagem em consumir azeite brasileiro?

Paulo Freitas: Uma das principais vantagens é o frescor do azeite. O azeite pode ser muito parecido com o vinho em vários sentidos, mas essa questão é oposta: quanto mais jovem for o azeite, mais intenso serão seus atributos. Enquanto as garrafas dos países mediterrâneos passam entre 40 e 60 dias a bordo de um navio até chegar aqui, os azeites brasileiros chegam rapidamente à mesa do consumidor.

Vale destacar que a época da colheita das azeitonas no Hemisfério Norte vai do final de outubro até o início de janeiro. Depois da extração, o azeite decanta por cerca de 45 dias, para então seguir rumo a longa viagem. Já aqui no Hemisfério Sul, a colheita começa no final de janeiro e pode se estender até o final de março. Logo, é possível que o azeite brasileiro fique pronto para o consumo antes mesmo de os óleos europeus chegarem ao nosso país – e isso garante um produto muito mais rico.

Por isso, conferir a data de envase do azeite é mais importante do que verificar sua acidez (veja mais detalhes sobre a acidez aqui). Idealmente, um azeite deve ser consumido até um ano após o envase. Afinal, com o passar do tempo, os atributos positivos de aroma e sabor, amargo e picante, diminuem de intensidade (veja mais sobre esses atributos aqui).

O que é que os azeites brasileiros têm

Azeites brasileiros são mais caros do que os importados?

Paulo Freitas: Não. Azeites brasileiros só são mais caros quando comparados com marcas comerciais básicas. Mas até mesmo as marcas comerciais já estão lançando linhas especiais que custam o dobro do preço. Assim como não podemos comparar um vinho de garrafão com uma safra mais exclusiva ou uma cerveja artesanal puro malte com uma popular, também não podemos comparar um azeite de alta qualidade de um pequeno produtor com um azeite de uma grande marca que sequer tem seu próprio olival. São produtos totalmente diferentes. Mesmo que os dois azeites sejam extravirgem e cumpram os parâmetros sensoriais e de acidez inferior a 0,8%, o sabor e o aroma do azeite de um pequeno produtor são superiores ao azeite de uma marca comercial que produz em grande escala, mesmo que seja grega ou portuguesa.

Por que temos a impressão de que as azeites brasileiros apareceram “de repente”?

Paulo Freitas: Os produtores brasileiros mais antigos começaram a plantar oliveiras há aproximadamente dez anos. Os primeiros azeites foram extraídos há apenas quatro anos. Por isso, a maioria das pessoas ainda desconhece que o Brasil tem produção de azeite. Além da falta de conhecimento, a oferta é pequena. Se somarmos a produção de todos os produtores, o volume de azeite brasileiro ainda não representa 1% da quantidade total que o brasileiro consome. À medida que as oliveiras crescerem e derem mais frutos, esse volume de produção também crescerá. Com isso, teremos azeites brasileiros em mais pontos de venda, o que aumentará a divulgação.

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